domingo, 2 de março de 2008

Nossos Anjos



Texto em comemoração à chegada de nossos filhos. Foi utilizado em um mural quando realizamos uma celebração juntamente com amigos e familiares. Como o texto teve boa receptividade, resolvi publicar aqui.
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Anjos
Anjos estão em nossos caminhos na terra há bastante tempo.
Anjos são nossos pais e mães, irmãos e irmãs, familiares de um modo geral.
Anjos são os amigos verdadeiros sempre presentes e dispostos a doar de si. Anjos de proteção e companheirismo.
Anjos que são nossos afilhados(as) e sobrinhos(as), iluminando nossos dias. Anjos de amor, de ternura, de bem querer. Anjos que tornam nossos dias mais leves e repletos de felicidade.
Mas Anjos também vêm ao mundo de uma forma especial como nossos filhos.
Ahhhhh esses anjos nos enchem de uma felicidade especial e de um amor que transborda o peito, que não sai da cabeça, que inunda nossa alma e que nos provoca risos e lágrimas de felicidade.
São anjos que nos deixam à mercê de um olhar.
Entregues aos seus desejos muitas vezes.
Estes Anjos, nossos filhos, vêm ao mundo através do ventre de um Anjo que chamamos "Mãe", ou então, através dos braços de outros anjos, pois Deus opera seus milagres.
Percorrem caminhos que somente Deus já sabia, e nos surpreendem quando em um encontro marcado em outros planos, nos olham nos olhos, com um brilho especial e nos chamam de PAI, nos chamam de MÃE. Então sabemos que Deus de Milagres operou e fez valer os seus sagrados escritos, no Livro da Vida.
Hoje queremos retribuir à todos os Anjos que aqui estão presentes, os pensamentos, gestos, palavras ou ações.
Todos os Anjos que de uma forma ou outra contribuíram para que este sonho que chamamos de Paternidade e Maternidade pudesse se materializar.
Que contribuíram para que pudéssemos hoje pronunciar as palavras "filho" e "filha", e de forma ainda mais tocante, ouvir as palavras "Pai" e "Mãe".
Agradecemos ainda mais aos nossos Anjos Vitória e Isaías, que não desistiram diante das dificuldades que enfrentaram em suas vidas, que persistiram em uma vida cheia de dores, sob a proteção divina, e conforme o combinado nos planos espirituais, nos encontraram conforme estava escrito, para então nunca mais se afastarem do nosso lar, do nosso afeto, do nosso carinho e do nosso Amor, incondicional.
Até aqui a nossa Fé foi testada, assim como a paciência e a perseverança, com tropeços sim, com lágrimas e sofrimentos, mas dentro do tempo do Senhor, atravessamos o deserto das angústias, e renasceram em forma de Amor e realização em um Reencontro iluminado.
Muito obrigado aos nossos Anjos Vitória e Isaías, nossos filhos.
Muitas Felicidades e Bençãos.
Luciano Jacques
Dezembro de 2007

ESQUECIDOS

Texto fruto da observação não imparcial, movido sempre pela emoção e o sentimento.
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Olhares distantes e desprovidos de esperança. Caminhantes sem destino, perdendo o passado e a esperança em um futuro. Pessoas duplamente esquecidas. Uma vez pela sociedade, com raríssimas exceções - e infelizmente não tenho ultimamente me incluído nestas exceções. Outra vez esquecidos por eles mesmos, pois muitos já não se lembram mais da sua própria essência. Quem são? São os chamados moradores de rua, outros de mendigos, mendicantes ou pedintes. Quem sabe, conforme o olhar do observador, caso este observe, alguns sejam chamados de vagabundos, bêbados ou viciados. Notamos suas expressões de angústia e desolação pelas ruas, pelos prédios abandonados e esquinas. Nas praças das cidades cheias de gente e vazias de emoção. Notamos uma provável tristeza ou sintomas de um quadro avançado de depressão. Outros nos surpreendem com uma força, uma vitalidade e uma aparente alegria fugaz.

São histórias desconhecidas por todos, ou quase todos. São filhos abandonados. Pais ou mães desprezados. Viciosos cujos familiares desistiram de lhes salvar, ou não puderam salvar. Quem sabe deixaram para um dia que nunca parece chegar. Muitos tiveram suas famílias ou seus empregos, mas as famílias se diluíram em um oceano de problemas insolúveis, e seus empregos se perderam no tempo. Alguns até trabalham de forma digna em subempregos que não são dignificantes.

Passamos por eles, e se prestarmos a devida atenção, quem sabe possamos imaginar suas dores ou seus dramas. Em alguns casos estendemos as mãos com algumas moedas, ou quem sabe algum alimento para o corpo físico, no intuito inócuo de fazer o bem, e mais ainda para aliviar um pouco nosso próprio sentimento de culpa, oculto e desconhecido. Muito raramente paramos para ver nos seus olhos, perguntar-lhes os nomes, de onde vieram e sem possuem familiares. Como chegaram a tal ponto de degradação humana? Seria extremamente constrangedor perguntar-lhes para onde pretendem ir, pois certamente não o sabem.

A grande massa desses maiores abandonados ultrapassou os tênues limites da miserabilidade. Eles simplesmente desistiram de viver e andam por aí carregando ou arrastando suas vidas, esperando um final, um triste final. Alguns invadiram o terreno instável, obscuro e doloroso da insanidade e da loucura, perdendo-se em devaneios, sendo vistos como loucos ou doentes sem tratamento. Não raras vezes são vistos como bêbados ou vagabundos, sentenciados em um processo sem defesa. Poucos terão as bênçãos de serem iluminados ou salvos por mãos piedosas e corações bondosos.

Em uma tarde quente e ensolarada fiquei notando um senhor, que aparentava uns setenta e poucos anos, mas que deveria ter cinqüenta e poucos. Ele arrastava os resquícios aparentes daquilo que sobrou de uma vida em uma velha bicicleta de pneu furado. Eram trapos e restos de roupas, utensílios amarrados. Ficou uma tarde inteira à sombra de uma grande mangueira em um dos trevos da cidade. Falando e discutindo com o invisível, sabe-se lá consigo mesmo, com movimentos repetitivos com a cabeça e as com mãos. Tragando um palheiro de papel e sem fumo. A longa barba estava amarelada, suas vestes não mereciam ser chamadas assim. Seu olhar marcou o meu olhar.

Esta imagem me fez refletir sobre estes esquecidos. Em alguns países eles até recebem algum auxílio governamental através de programas sociais, fornecimento de alimentos e roupas, tratamento médico, albergues que sempre estão lotados. Em outros vivem no completo abandono. Mais que as feridas físicas, são as doenças da alma que precisavam ser curadas.

Não devemos naturalmente deixar de mencionar o trabalho abnegado e voluntariado de ONGs, grupos ou pessoas, entidades assistenciais ou religiosas que tentam fazer algo. No entanto a cruel realidade continua a fervilhar sob nossos olhos.

Em raríssimos casos, como disse anteriormente, possuem forças para nos surpreender. Uma senhora recentemente fez isso comigo. Em um canteiro de uma avenida estendia suas roupas, ou o que sobrava delas. Com um amplo sorriso e somente um dente, me dizia que estava secando ao sol e que precisava manter-se limpa para que os outros não digam que está “fedida”. Foi expulsa de casa pela filha por causa de uma briga com o genro. Dois fatores me foram suscitados em minha mente.

De onde viria este sinal de força? Quem seriam os outros? De algum lugar no plano divino, Deus, seria a resposta para a primeira pergunta? Certamente que sim. E maiores divagações quanto à isto se faz desnecessária neste momento. Por outro lado e “Os Outros”? Seriamos todos nós que muitas vezes agimos com um certo ar de indiferença? Ora julgamos de forma preconceituosa ou quem sabe munidos de pena, culpa e misericórdia. Ora tomamos iniciativas isoladas sem o acompanhamento de uma política realmente saneadora? Ou pior ainda: não notamos ou lhes esquecemos?

O cataclisma humano se agrava quando à esta população de seres humanos, somam-se crianças e adolescentes. Viciando-se pelas esquinas e seguindo os mesmos passos de seus chamados “pais”.

Não basta mais o indignar-se ou o sensibilizar-se. Como ajudar essas pessoas antes que terminem seus dias como indigentes?

De qualquer forma o intuito não era aqui, neste momento, indicar ou apontar soluções. No máximo levantar discussões e reflexões. Abrir os olhos para este fato que insiste em saltar aos nossos olhos e nos chocar no dia-a-dia. Existe mas parece não tocar, preocupa, mas parece não fomentar a busca por soluções efetivas. Ou seria um caso sem solução? De qualquer forma não podemos deixar cair no esquecimento estes que são duplamente esquecidos.
Luciano Jacques
fevereiro de 2008

sábado, 1 de março de 2008

Pais sem Filhos x Filhos sem Pais

Este texto foi originalmente feito para publicação em um jornal de grande circulação aqui na cidade. No entanto, por motivos que até hoje desconheço, ele não foi publicado. Isto foi em meados de 2006. Como foi bastante elogiado por conhecedores da temática, publico neste blog não como um texto acabado, mas como um apanhado de informações, dramas, sentimentos e preocupações, que com o tempo irá se adequando à novas realidades.
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Muitos passam pelo drama de não poder ter filhos biológicos. Destes uma fração toma uma decisão muito importante, fundamentada na emoção, que irá mudar a sua maneira de ver o mundo e a vida. Escolhem o caminho da Adoção.

Iniciamos nossa reflexão sobre as centenas de casais que se habilitam para adoção nas diversas comarcas espalhadas pelo nosso país. Casais que já passaram, na maioria dos casos, pelas infindáveis angústias de saber da impossibilidade de ter filhos naturais. Caminhos muitas vezes demorado e tortuoso. Casais que a duras penas tomaram a decisão de adotar uma criança, enfim, um filho. Incentivados por programas sociais, por pressões sociais que falam das inúmeras crianças abandonadas existentes na nossa sociedade. Incentivados por opiniões de familiares, opiniões de médicos e por tantas outras fontes, de incentivo.

Pois bem. Tomada esta grandiosa decisão, se deparam com uma situação inusitada. Iniciam um processo de habilitação na valorosa justiça estadual, que bem que poderia ser mais célere, mas que com uma certa dose de paciência e perseverança conseguem chegar ao final derradeiro de estar habilitado para a tão esperada adoção. Final?

Descobre neste momento que está apenas no início de uma jornada que irá demorar muito ainda. Frustra-se quando um servidor lhe informa que agora que está habilitado, o casal, “vá para casa e esqueça”. Esquecer? Como?

Foi motivo de tão grandes reflexões, expectativas, sonhos. Tudo frustrado? Ir para casa e esquecer? É isso que cabe à estes pais sem filhos? Sim, pais sem filhos, pois a paternidade e a maternidade estão ali, latentes, adormecidas, aguardando o momento mágico de manifestar todo o seu amor por uma criança que será acolhida como filho, verdadeiro, de coração, da alma.

Uma jornada que se estende por quantos anos? Um, dois, três, ou muito mais. Porquê? Se existem tantas crianças clamando por carinho e afeto. Argumentam os “especialistas” que a “culpa” seria dos próprios pretendentes à adoção, pois desejam crianças do sexo feminino, recém nascidas, e da cor branca, ou seja, raridade entre as crianças aptas para adoção.

Bem, agora adentramos em um segundo aspecto desta temática. Crianças aptas para adoção. Quais são, de onde vêm e onde estão estas crianças?

Crianças fruto do abandono, da pobreza, da miséria. Mas também do alcoolismo, da violência familiar e das drogas. Os pais estão envolvidos nestas mazelas. As crianças são vítimas também do descuido, da falta de carinho e de afeto. Estão nos abrigos, nas creches, nos lares X, Y, Z. Naturalmente vêm das comunidades carentes de nossa sociedade. Mas com um detalhe, nem todas estas crianças estão aptas para adoção.

É preciso uma longa jornada para esta criança estar nesta condição. Mesmo sendo abandonada é necessário saber, com absoluta certeza que a mãe que teve coragem de abandoná-la tem realmente certeza disto. Que os pais que tiveram coragem de bater nesta criança, a ponto dela ser abrigada para sua segurança física, não sendo uma mera palmada, mas atos repetidos e reiterados de violência familiar, não irão se redimir de seus pecados, transformando-se em exemplos de pais amáveis de que elas necessitam. É preciso dar muitas “oportunidades” para estes pais, que não tem condições de ser pais, por questões diversas, mostrarem que merecem tal condição, e terem sua prole de volta ao seio familiar. Álcool e drogas estão envolvidos nestas calamidades que desestruturam a família. Tentativas e novas tentativas, tratamentos para os pais. Grupos de Apoio. Psicólogos, terapias. Tudo com o desejo de recuperar estes pais. Processos judiciais nascem e demoram a morrer. Quando finalmente se chega à conclusão de que estes pais não tem realmente condições de exercer a sagrada missão da paternidade e da maternidade, e perdem o Poder Familiar, muitas vezes, a criança ainda não estará apta para adoção. Surgem medidas paliativas tentando dar a guarda para uma avó ou quem sabe uma tia, que na maioria dos casos sofre dos mesmos problemas enfrentados por aqueles pais que perderam o Poder Familiar. Tudo para preservar a figura da família. Alguns aceitam o “encargo”. Outros não. E finalmente a criança estará apta para adoção, quem sabe encaminhada para uma família que acolha esta criança, para um casal que se habilitou e aguardou pacientemente durante alguns anos a oportunidade de ter um filho. Mas ela corre um risco enorme, de não encontrar uma família. Pois o processo para chegar à conclusão de que ela está apta para adoção demorou tanto, que ela já não se enquadra mais nas características desejadas pelos pretendentes.

Abrigo. Lar transitório. Esta seria a função de um abrigo. De ser um Lar provisório. No entanto o que se observa é que este provisório estende-se por mais de um ano, dois ou três anos. Existem crianças que já completaram mais de 10 anos vivendo em abrigos. Claro, convém lembrar que destas, muitas ainda não estão aptas para adoção.

São crianças que chegam recém nascidas nos abrigos. Muitas abandonadas. Mas o processo que irá dizer se ela está apta para adoção ou não poderá fazer com que ela festeje o primeiro aniversário dentro do abrigo.

A fase mais importante da vida do ser humano ela viveu sem nenhum referencial familiar. Sem referência paterna. E pior, sem referencia materna. Viveu sem carinho e sem afeto. Claro, recebeu a atenção abnegada das funcionárias que cuidam destas crianças, das(os) voluntários, mas longe de se comparar à uma família, no sentido emocional da palavra.

O famoso Dr. D.W.Winnicott (1896-1971), pediatra e psicanalista inglês já nos ensinou que a possibilidade de sentir-se pertencente à segurança de um lar é condição fundamental para o saudável desenvolvimento da personalidade de um indivíduo. “A unidade familiar possibilita uma segurança indispensável à criança pequena. A ausência dessa segurança terá efeitos sobre o desenvolvimento emocional e acarretará danos à personalidade e ao caráter”.

Ele ainda discorreu que a vida institucional, por suas características de rotinização, massificação e disciplina, ou falta dela, cria um ambiente de impessoalidade e falta de afeto, que pode prejudicar o indivíduo de várias maneiras.

Isto não significa, de maneira alguma repito, desmerecer o trabalho grandioso desenvolvido nos abrigos. Mas objetivamente esclarecer que este seria um Lar Provisório. O que é provisório? Seis meses? Um ano? Mais?

Para citar mais uma vez Winnicott, ele nos esclarece que “o provimento de coisas materiais, de alimentação entre outros são aspectos importantes para o desenvolvimento de crianças e adolescentes, porém, mesmo que sejam fornecidos em abundância, os essenciais estará faltando se os próprios pais, ou os pais adotivos, ou guardiães da criança não forem pessoas que assumam a responsabilidade pelo seu desenvolvimento.“ Quem assume esta responsabilidade?

Médicos afirmam que o período mais importante para a formação da personalidade do ser humano está no primeiro ano de vida. E muitas passam longe de uma família.

Muitas crianças nesses lares e abrigos são extremamente carentes, de afeto e atenção, muitas não sabem o que é individualidade ou seu próprio espaço, não saberão tão cedo o que é uma família, pai e mãe. Seus pais são pais de finais de semana, quando o são. Situação bem confortável. Mas não para a criança.

Porque a demora em solucionar a situação destas crianças? Que preço iremos pagar no futuro? Que preço estas crianças estão pagando?

Realmente procede a manifestação do Sr. Dalteri Jaques quando fala dos pedidos de doação. Vivemos em um país de doações quando centenas de pais poderiam acolher estas crianças com afeto, amor e carinho.

É preciso tornar este procedimento mais objeto e célere. É preciso desmistificar a Adoção e não utilizar ela como marketing, mas também como política aplicável e prática na constituição de famílias. De nada adianta a sociedade de maneira geral incentivar a adoção quando na prática ela mal consegue sobreviver.

O caro leitor já experimentou visitar um abrigo e utilizar a expressão adoção? Cuidado, existe uma fumaça de temor ao ver pessoas manifestando o desejo de adoção nestas instituições.

Ah se a adoção fosse verdadeiramente incentivada, se as instituições realmente desejassem isto.

Se este processo fosse mais objetivo, nos dois sentidos – de habilitar pretendentes à adoção e de ter crianças aptas para a mesma – não seriam necessários os atalhos e caminhos escuros e tortuosos para burlar a lei, muitas vezes incorretos, para saciar, mais que um desejo, a necessidade da paternidade e da maternidade.

Caros pretendentes à adoção, não permaneçam na posição passiva de “ir para casa e esquecer”. Quem sabe devam se unir e cobrar uma forma mais coerente e correta quanto à Adoção. Especialmente os primeiros da “fila”. Saiam à campo, ninguém poderá impedir, até que se imponha o contrário, uma visitação aos abrigos. Aliás este é um tema que em breve estarei detalhando em outro artigo.

As crianças, e não os pretendentes, agradecem. Pois pais sem filhos sofrem, mas filhos sem pais sofrem mais ainda.

Reitero, quem se responsabiliza em relação aos danos futuros às crianças? A Justiça? O Ministério Público? O Conselho Tutelar? O Executivo? O legislativo? Bem, não importa, em qualquer das opções anteriores são as crianças que sofrem as conseqüências, e não somente os pais (sem filhos).

Luciano Jacques
2006